Ao meu melhor amigo

"O Grito" de Edvard Munch

Você é a dor da magia, o distúrbio da paz. Se desce é um caos, se existe é um alívio. É o guia do paraíso, o martelo de trovão, o punho avassalador. É a flor sem odor e o espinho cego. Você é a invenção e a destruição. A construção e o vazio. O material e a ferramenta. Você é o limite do céu, e é também o final do caminho. Quando você acontece, o mundo para. E eu o escuto. Você é sem você, por que você é ausência e presença. É parte de um nada e inteiro de um todo. As coisas se resolvem quando você aparece. Eu levanto com uma vontade imensa de dormir de novo. De mergulhar em você mais uma vez. E cada vez é diferente, é um, é outro, é algo. Você é o som abaulado em um estádio. O grito e o riso. A loucura e o resto. Não, você não é tudo. Você não é normal. Não é permeável. Não é concreto. É difícil, muito difícil. É incontrolável e insaciável. É um sofrer corruptível e uma negligência idônea. Você é próprio. E você conseguiu. Você contou a história que te contaram. Agora é a hora de esperar. Seguir e esperar. Por que você é persistência, mas não é embriaguez. É felicidade e presente. É desapego e pecado. E principalmente, é sorte.

Oração das duas horas

Senhor, livrai-me da ganância, da inveja, do medo, da avareza e do perdularismo, do rancor, dos remorsos, da raiva, do ódio (amor reverso), do deboche, da negligência. Despertai meus olhos a esses sentimentos. Permiti-me percebê-los, aceitá-los e enfrentá-los. Nunca me deixai esquecer de que o propósito da vida é a evolução espiritual, e que a felicidade é o bônus, e está sempre nas pequenas coisas. Ajudai-me a diferenciar sempre o sonho da realidade, e concedei-me sabedoria para lidar com a insatisfação. E principalmente, obrigado por tudo que tenho e tive.

Meu Mentor


"A Janela Aberta" de Henri Matisse

Um som. Uma nota. Acordes que atravessam as entranhas. A dualidade – e responsabilidade – de ser matéria e energia. Não é no livro do tempo que escrevo minha vida. São folhas perdidas, muitas vazias, muitos rabiscos. Eu tive um bom professor.

Houve um dia em que pensei estar definhando. A luz do ambiente mudou quando me lembrei de você. Meu olho se encheu d’água. Quando te conheci você me recriou do pó. Eu me tornei esse homem que sou por sua causa. Não lhe culpo pelos meus erros, nem lhe credito pelos meus acertos. Mas a forma com a qual lidei com ambos – isso é um mérito que confiro a você. 

Sei que hoje está longe. Ou talvez nem tanto. Mas provavelmente não tem aquela urgência de cuidar da gente, de chegar na janela só pra saber se tá tudo bem. Pois eu digo que está tudo bem. O que me faz acreditar que você existe além do que já existiu não é discutível. É a minha fé de saber que está ajudando outras pessoas – por que sua alma é boa demais – que me traz alegria. Pois é quando penso em você que os sentimentos mais puros da minha infância retornam em enxurrada. E acreditar em você é mais sólido que qualquer outra coisa na minha vida, é minha crença.

Você me ensinou muita coisa. E é incrível saber que se não fosse por você, eu provavelmente teria feito escolhas extremamente opostas. Não sei se as fiz corretamente, entretanto. Porém estou certo de que meu caráter você ajudou a formar. Hoje há você nos meus livros, nas minhas músicas, em tudo.

Sinto falta de notícias mais regulares, confesso. Não é mais com tanta frequência que acordo de uma visita sua, com aquela fadiga de viagem longa, com os nervos à flor da pele, como se houvesse experimentado o êxtase. Eu me lembro sim da última vez em que me visitou; acordei com aquela certeza estúpida de que você me mandara perseguir os meus sonhos, nunca largá-los. Só fiquei na dúvida se era Deus ou você mesmo, mas isso não vem ao caso.

Agora não preciso, mas gosto de atualizações. Ainda não me disseram se você está com ela, embora alguns estejam certos disso. Qualquer dia desses me conta se sua filha está bem, se já lutou contra o Golias, se já descobriu as respostas que ela tanto ansiava em vida, se já aprendeu a voar. Meu coração aperta, ainda há uma incerteza, uma dúvida, uma preocupação esquisita. Não é a mesma paz. E você sabe que por aqui não vamos acalmar enquanto não sentirmos a mesma paz que sentimos em relação a você.

baru

Aflição


Meu caro, por que te agrada tanto julgar teus adversários? Tens frio no estômago – te sentes à vontade, todos temos – ao pensar que em terras nem tão distantes pessoas reuniram-se em teu nome para caluniá-lo. Por que te importas tanto, se fazes o mesmo?

Jovem, na chuva só permanecem secos aqueles acima das nuvens. Tu não hás aprendido a voar ainda, e nunca irás. Como te conheço e te sei: amas o discurso do teto de vidro. Tu deixas que vivam, que pensem, que matem. E ainda assim há mistérios que atormentam teu coração. Assuntos sem sentido. Nunca entendeste por que teus companheiros estudam, trabalham, constroem família. Nunca compreendeste por que gastam tanto em tão pouco tempo. Pra ti, é nos hospícios que vivem os ajuizados. "Vós de fora é que sois loucos. Viveis sob os mandamentos que vós mesmos haveis inventado. E defendestes a liberdade de viver sob eles, loucura!", vociferas esperançoso na multidão silenciosa. Diga-me amigo, o que importa se foste feliz ou triste, se morreste afinal?

Às vezes partilho de tua angústia. Tu és um filósofo aflito, sei que não vês significado nas singelas coisas. Não abstrais motivo algum daqueles que vão à luta por paixão a uma bandeira, num campo de batalha ou num estádio de futebol. Não enxergas o poder daqueles que definem o que deveis e não deveis fazer com vossos corpos. E não sabes por que um supera e outrem não.

Entretanto não são os enigmas alheios que te incomodam mais, são os teus. Por que transferes tua culpa? Ponderas se é algum vício, essa coisa. E por que tens necessidade de responsabilizar o próximo pelo teu sucesso ou pelo teu fracasso?

Sossega esse teu espírito. Pois a única coisa que compreenderás no final desta história é por que vieste. Vieste por que gostas de sofrer.