Now it's for you.

I wanted you to know I hear you. Here I hear you all the time... I hear you saying on random stuff, reacting to everything in front of me. I wanted you to see how sad it is to be so far from you. How painful it is when I try to reach you and you block me off and I feel a twinge in my stomach. It's like a knife piercing me. I know you don't do it on purpose, because I know you, you put our friendship to the highest levels of tension, but it's ok, cause you're my boy, you're always be my boy and I'm used to it and even grateful to God I have you by my side, just the way you are. But I'm also proud, and my pride has jeopardised me so many times that I've lost count. This pride makes me want to to stop trying, stop running... And wait for you to come. But this time I am simply not able to do this, for it's not the same. I'm not in Brazil. The pictures I post don't match reality. I'm not happy, I'm not having wonderful experiences and I'm not making a lot of new friends. I'm lonely, tasting some solitude I've never had before. I'm finding out true friends stay behind. And one of them is somehow punishing me for I've abandoned him. So I wanted to say this: I haven't, Sam. I'm here, I hear you but I can't see you. As it's written in your book, the eyes are blind, we must see with our hearts. I'd like to see you, and that's all.

Won't mind the gap


So the fear has finally come. Not sure if it is here only now, I would say it has most likely been latent for a while, since this whole possibility of travelling abroad has shown up. And each day it became truer, just like the fear was growing inside, until I notice its presence. Amazing how something that big can go unoticed for so long inside us. Maybe because I truly believed (and a part of me still does) that I was capable, grown up, that I didn't need anybody. I believed I was strong, independent. But now I think different. There are so many doubts, that I feel like a teenager. I'm afraid I won't make friends and allies. I'm afraid people might not like me. I fear making enemies. I fear misreading the classes, misfitting the rythm, the new country, the new culture. All I do is fear.

It's funny how there was only euphoria in the beginning. The will to expand, to create, to change, to love, to suffer, to be born again. The benefit of erasing everything you are and were to start from scratch. However, today there is the fear of being unfaithful to oneself.

I admit the anxiety for the change has become stronger due the weariness of life, fatigue of the routine and the friends. When a so close and touchable perspective of severance like this arose, I allowed my body and mind to be taken over by dissatisfaction. I judged myself unecessary and independent from others. I said: I'm glad I'm going, for I would not bear to stay anymore.

So I lied. Because real life is so damn good! There are love and hate. Thrill and boredom. But for each laughter, for each simple motion or simple sentence that arouses a meaningless smile - each minimal instant of weightlessness - it is worth it. Reality is worth it. And I may not know how far I can live from it.

The delusion was to think I would take all I am with me. I was wrong. Most of me stays behind: that's my mom, my friends, my college, my job, my house. What goes is the empty cocoon, just linked to all behind by such an unbreakable thread, ready to to fill up once more with good and bad things, with life, until it's clogged, so I can go back.

What I know is that for now, I can't mind the gap. I want to leave.

Ao sair de casa



E aí que o medo finalmente bateu. Não sei se bateu agora, muito provavelmente estava latente há um bocado, desde que toda essa possibilidade de viajar pra outro país começou. E a cada dia se tornou mais verdade, assim como o medo foi crescendo, até eu perceber sua presença. Incrível como uma coisa tão grande pode passar despercebida por tanto tempo dentro da gente. Talvez por que eu realmente acreditava (e uma parte ainda acredita) que era capaz, adulto, que não precisava de ninguém. Acreditava que eu era forte, independente. Pois agora meu eu maior pensa o contrário. São tantas inseguranças. E inseguranças tão imbecis que me sinto um adolescente. Temo não conseguir fazer nenhuma amizade, nenhum aliado. Temo não gostar das pessoas, ou as pessoas não gostarem de mim. Temo fazer inimizades. Temo não conseguir acompanhar as aulas, o ritmo, o novo país, a nova cultura. Só temo.

Engraçado que no início só havia euforia. A vontade de expandir, de criar, de mudar, de amar, de sofrer, de nascer de novo. A vantagem de poder apagar tudo que você é e foi para começar do zero. Todavia, hoje há o medo de ser infiel à si mesmo.

Admito que a ansiedade pela mudança se fortaleceu devido ao cansaço da vida, cansaço dos amigos, cansaço da rotina. Quando uma perspectiva de rompimento tão palpável e alcançável como esta surgiu, permiti que a insatisfação tomasse conta do meu corpo e mente. Julguei-me desnecessário e independente aos outros. Disse: que bom que vou, por que não aguentaria mais ficar.

E menti. Por que a vida real é boa demais. Há dor e amor. Há emoção e tédio. Porém a cada risada, a cada pequeno gesto ou pequena frase que arranca um sorriso no rosto - a cada mínimo instante de leveza - ela vale a pena. A realidade vale a pena. E não sei até que ponto conseguirei viver longe dela.

A ilusão foi pensar que eu levaria tudo que sou comigo. Engano. A minha maior parte fica pra trás: é minha mãe, meus amigos, minha faculdade, meu trabalho, minha casa. O que vai é o casulo vazio, apenas "ligado" a tudo que fica por um fio inquebrantável, pronto pra se encher novamente de coisas boas e ruins, se encher novamente de vida.

Por hora, não posso me importar com o vão que me separará. Quero sair de casa.

Ao meu melhor amigo

"O Grito" de Edvard Munch

Você é a dor da magia, o distúrbio da paz. Se desce é um caos, se existe é um alívio. É o guia do paraíso, o martelo de trovão, o punho avassalador. É a flor sem odor e o espinho cego. Você é a invenção e a destruição. A construção e o vazio. O material e a ferramenta. Você é o limite do céu, e é também o final do caminho. Quando você acontece, o mundo para. E eu o escuto. Você é sem você, por que você é ausência e presença. É parte de um nada e inteiro de um todo. As coisas se resolvem quando você aparece. Eu levanto com uma vontade imensa de dormir de novo. De mergulhar em você mais uma vez. E cada vez é diferente, é um, é outro, é algo. Você é o som abaulado em um estádio. O grito e o riso. A loucura e o resto. Não, você não é tudo. Você não é normal. Não é permeável. Não é concreto. É difícil, muito difícil. É incontrolável e insaciável. É um sofrer corruptível e uma negligência idônea. Você é próprio. E você conseguiu. Você contou a história que te contaram. Agora é a hora de esperar. Seguir e esperar. Por que você é persistência, mas não é embriaguez. É felicidade e presente. É desapego e pecado. E principalmente, é sorte.

Oração das duas horas

Senhor, livrai-me da ganância, da inveja, do medo, da avareza e do perdularismo, do rancor, dos remorsos, da raiva, do ódio (amor reverso), do deboche, da negligência. Despertai meus olhos a esses sentimentos. Permiti-me percebê-los, aceitá-los e enfrentá-los. Nunca me deixai esquecer de que o propósito da vida é a evolução espiritual, e que a felicidade é o bônus, e está sempre nas pequenas coisas. Ajudai-me a diferenciar sempre o sonho da realidade, e concedei-me sabedoria para lidar com a insatisfação. E principalmente, obrigado por tudo que tenho e tive.

Raízes Rasas



Colocar qualquer pensamento na sua direção me faz querer extravasar por meio da escrita. É uma fagulha, uma coisa elétrica que percorre meu corpo do dedão do pé ao indicador. Uma ânsia estranha. Não, não é nova. Mas ainda é estranha. Apaixonar-se é sempre um mistério. Aos 23 anos de idade - novo - aprendi mais uma valiosa lição: não posso prever o amor. Não posso escrever um algoritmo para ele, baseado em experiências passadas. Não dá pra viver de heranças. As experiências anteriores, se pá, nem se repetem, nem são válidas. Muitas vezes são tão diversas que representam o contrário do contrário; ações iguais provocam resultados diferentes. 

Nessa mais recente tentativa eu fiz algumas previsões, como venho fazendo a cada derrocada e a cada degrau. Escrevi mentalmente postulados que pensei serem sempre verdadeiros. Surpreendi-me novamente. Agora sei, cada dia é diferente. Não é o mesmo sol. Parece, mas não é. Alguns dias tem diferenças sutis, outros extravagantes... E hoje foi um dia diferente de todos que já vivi. 

Hoje eu te vi sob uma luz fraca, difusa, seu rosto de perfil tapado pela própria sombra. Sua arte no rosto, bem delineada. Pensei em amizade, sexo, diversão.

Você me chamou pra dançar. Talvez isso não tenha acontecido tão de repente, mas ali estava eu, me divertindo. E no pôr-do-sol não era só um sentimento, eram mil. Não sei explicar, fugiu de todas aquelas regras. Foi tudo tão diferente! O fato de ter surgido, tão puramente, da carne, estapeou-me o rosto. Era pra eu esquecer os meus conceitos, parar de acreditar em bobagens.

E do jeito que veio foi. Deixou buraco, deixou amor, deixou tristeza. Saudade é palavra inventada, é receita. Na realidade é conjunto de um punhado de outras coisas. Não há descrições. Só aquele pesar, que comprime o peito... E aí há o medo de permanecer eu mesmo, e esse é o pior de todos os medos. Por que vontade de sofrer de amor há de sobra. Mas a natureza não permite. E no fim só há lamentações. Lamentações de que as coisas aconteceram, mais uma vez, em tempos diferentes. Mas agora nem isso eu me arrisco a dizer que é sempre verdade.

O meu problema é simples, eu crio raízes rasas. Meu tempo é hoje, só hoje.


Meu Mentor


"A Janela Aberta" de Henri Matisse

Um som. Uma nota. Acordes que atravessam as entranhas. A dualidade – e responsabilidade – de ser matéria e energia. Não é no livro do tempo que escrevo minha vida. São folhas perdidas, muitas vazias, muitos rabiscos. Eu tive um bom professor.

Houve um dia em que pensei estar definhando. A luz do ambiente mudou quando me lembrei de você. Meu olho se encheu d’água. Quando te conheci você me recriou do pó. Eu me tornei esse homem que sou por sua causa. Não lhe culpo pelos meus erros, nem lhe credito pelos meus acertos. Mas a forma com a qual lidei com ambos – isso é um mérito que confiro a você. 

Sei que hoje está longe. Ou talvez nem tanto. Mas provavelmente não tem aquela urgência de cuidar da gente, de chegar na janela só pra saber se tá tudo bem. Pois eu digo que está tudo bem. O que me faz acreditar que você existe além do que já existiu não é discutível. É a minha fé de saber que está ajudando outras pessoas – por que sua alma é boa demais – que me traz alegria. Pois é quando penso em você que os sentimentos mais puros da minha infância retornam em enxurrada. E acreditar em você é mais sólido que qualquer outra coisa na minha vida, é minha crença.

Você me ensinou muita coisa. E é incrível saber que se não fosse por você, eu provavelmente teria feito escolhas extremamente opostas. Não sei se as fiz corretamente, entretanto. Porém estou certo de que meu caráter você ajudou a formar. Hoje há você nos meus livros, nas minhas músicas, em tudo.

Sinto falta de notícias mais regulares, confesso. Não é mais com tanta frequência que acordo de uma visita sua, com aquela fadiga de viagem longa, com os nervos à flor da pele, como se houvesse experimentado o êxtase. Eu me lembro sim da última vez em que me visitou; acordei com aquela certeza estúpida de que você me mandara perseguir os meus sonhos, nunca largá-los. Só fiquei na dúvida se era Deus ou você mesmo, mas isso não vem ao caso.

Agora não preciso, mas gosto de atualizações. Ainda não me disseram se você está com ela, embora alguns estejam certos disso. Qualquer dia desses me conta se sua filha está bem, se já lutou contra o Golias, se já descobriu as respostas que ela tanto ansiava em vida, se já aprendeu a voar. Meu coração aperta, ainda há uma incerteza, uma dúvida, uma preocupação esquisita. Não é a mesma paz. E você sabe que por aqui não vamos acalmar enquanto não sentirmos a mesma paz que sentimos em relação a você.

baru

Aflição


Meu caro, por que te agrada tanto julgar teus adversários? Tens frio no estômago – te sentes à vontade, todos temos – ao pensar que em terras nem tão distantes pessoas reuniram-se em teu nome para caluniá-lo. Por que te importas tanto, se fazes o mesmo?

Jovem, na chuva só permanecem secos aqueles acima das nuvens. Tu não hás aprendido a voar ainda, e nunca irás. Como te conheço e te sei: amas o discurso do teto de vidro. Tu deixas que vivam, que pensem, que matem. E ainda assim há mistérios que atormentam teu coração. Assuntos sem sentido. Nunca entendeste por que teus companheiros estudam, trabalham, constroem família. Nunca compreendeste por que gastam tanto em tão pouco tempo. Pra ti, é nos hospícios que vivem os ajuizados. "Vós de fora é que sois loucos. Viveis sob os mandamentos que vós mesmos haveis inventado. E defendestes a liberdade de viver sob eles, loucura!", vociferas esperançoso na multidão silenciosa. Diga-me amigo, o que importa se foste feliz ou triste, se morreste afinal?

Às vezes partilho de tua angústia. Tu és um filósofo aflito, sei que não vês significado nas singelas coisas. Não abstrais motivo algum daqueles que vão à luta por paixão a uma bandeira, num campo de batalha ou num estádio de futebol. Não enxergas o poder daqueles que definem o que deveis e não deveis fazer com vossos corpos. E não sabes por que um supera e outrem não.

Entretanto não são os enigmas alheios que te incomodam mais, são os teus. Por que transferes tua culpa? Ponderas se é algum vício, essa coisa. E por que tens necessidade de responsabilizar o próximo pelo teu sucesso ou pelo teu fracasso?

Sossega esse teu espírito. Pois a única coisa que compreenderás no final desta história é por que vieste. Vieste por que gostas de sofrer.

No more turning tables

But that song wouldn't fit. This will.

Eu e Eles


Amanda não sabia o que era dançar. Sabia que tinha um dom, mas só conhecia seu paladar. E praquilo ela era ótima; provava comidas de todos os gostos, nutrientes de todos os credos. Não contava para as amigas sobre seu secreto prazer. Trancava-se no quarto ao som de Ravel enquanto saboreava um Gross gatêau.

O violino do irmão, encostado na parede, perdia seu tom devido às teias. E aquele som agudo só ecoava nas memórias de Amanda. A menina se preocupava com provas, trabalhos, relatórios... E o tempo voava. Lembranças são como fumaça, pensava.

Embora intocado, o Violino permanecia ali, no canto, escorado na parede desbotada e semi-encoberto pelas cortinas cinza encardidas datadas de 1950. Era o único presente que remanesceu do seu Irmão. A última batida de coração que pulsava num intervalo infinito, e Amanda vivia a espera da batida final.

Amanda morava longe de todos e todos os dias acordava cedo, muito cedo. Tão cedo que o Sol não se punha pra Amanda; era Sol o dia inteiro, 24 horas por dia. Ou 25, por que Amanda fazia o dia durar mais, não me perguntem como. Um dia acordou cedo pra pegar o ônibus da escola e não reparou que no canto onde havia um Violino, só havia poeira.

Na escola aprendeu muita coisa importante. Muita coisa. Importante. Aprendeu a contar, aprendeu a falar, aprendeu a brigar. Talvez não tenha aprendido a brigar na escola. Ou talvez nunca tenha aprendido a brigar, mas foi lá que aprendeu a raspar. Sim, raspar. Raspava tudo que via pela frente. Raspava o resto, raspava o começo, raspava a cabeça. Só não raspava a barba, por que não tinha.

Nesse dia raspou uma garota. E era uma raspa bem medíocre mesmo, coisa de gente pobre. Amanda nunca tinha raspado uma garota antes. Não por medo, a verdade é que ela nunca teve oportunidades de raspar nenhuma pessoa até então. Raspava o tacho da panela, raspava a perna sob o banho, raspava até as bordas de seu quarto – que era maior que sua casa e nem assim ficava menor – mas nunca raspara ninguém. E ali estava ela, raspando uma menina. E se apegou de tal forma àquilo... Que parecia doença.

A menina raspada ficou puta da vida, é claro. Espalhou pela escola o quanto Amanda era inescrupulosa, falsa. Chamou-a de meretriz na frente dos colegas. Raspou qualquer conceito de piedade e jogou no lixo. Amanda foi julgada. E no final a menina – vítima de Amanda – recuperou sua raspa. Muito alarde à toa. A culpa coube a Amanda e a raspa coube à paciente.

E quando chegou a casa e percebeu que o violino se fora, seu mundo desabou. A música acabou. Nunca mais dançaria ao som de seu Irmão mais velho. Nunca mais invadiria prédios, quebraria janelas, bateria portas. Não havia mais sabor a ser raspado. Parou de comer, emagreceu, morreu.

E a raspa da garota da escola, voltou a ser raspada novamente. Uma raspa não se atém à matéria primária depois de arrancada, e só Amanda saberia disso, por que Amanda sabia das coisas. Amanda sabia das coisas e ficou calada.