Ao meu melhor amigo

"O Grito" de Edvard Munch

Você é a dor da magia, o distúrbio da paz. Se desce é um caos, se existe é um alívio. É o guia do paraíso, o martelo de trovão, o punho avassalador. É a flor sem odor e o espinho cego. Você é a invenção e a destruição. A construção e o vazio. O material e a ferramenta. Você é o limite do céu, e é também o final do caminho. Quando você acontece, o mundo para. E eu o escuto. Você é sem você, por que você é ausência e presença. É parte de um nada e inteiro de um todo. As coisas se resolvem quando você aparece. Eu levanto com uma vontade imensa de dormir de novo. De mergulhar em você mais uma vez. E cada vez é diferente, é um, é outro, é algo. Você é o som abaulado em um estádio. O grito e o riso. A loucura e o resto. Não, você não é tudo. Você não é normal. Não é permeável. Não é concreto. É difícil, muito difícil. É incontrolável e insaciável. É um sofrer corruptível e uma negligência idônea. Você é próprio. E você conseguiu. Você contou a história que te contaram. Agora é a hora de esperar. Seguir e esperar. Por que você é persistência, mas não é embriaguez. É felicidade e presente. É desapego e pecado. E principalmente, é sorte.

Oração das duas horas

Senhor, livrai-me da ganância, da inveja, do medo, da avareza e do perdularismo, do rancor, dos remorsos, da raiva, do ódio (amor reverso), do deboche, da negligência. Despertai meus olhos a esses sentimentos. Permiti-me percebê-los, aceitá-los e enfrentá-los. Nunca me deixai esquecer de que o propósito da vida é a evolução espiritual, e que a felicidade é o bônus, e está sempre nas pequenas coisas. Ajudai-me a diferenciar sempre o sonho da realidade, e concedei-me sabedoria para lidar com a insatisfação. E principalmente, obrigado por tudo que tenho e tive.

Raízes Rasas



Colocar qualquer pensamento na sua direção me faz querer extravasar por meio da escrita. É uma fagulha, uma coisa elétrica que percorre meu corpo do dedão do pé ao indicador. Uma ânsia estranha. Não, não é nova. Mas ainda é estranha. Apaixonar-se é sempre um mistério. Aos 23 anos de idade - novo - aprendi mais uma valiosa lição: não posso prever o amor. Não posso escrever um algoritmo para ele, baseado em experiências passadas. Não dá pra viver de heranças. As experiências anteriores, se pá, nem se repetem, nem são válidas. Muitas vezes são tão diversas que representam o contrário do contrário; ações iguais provocam resultados diferentes. 

Nessa mais recente tentativa eu fiz algumas previsões, como venho fazendo a cada derrocada e a cada degrau. Escrevi mentalmente postulados que pensei serem sempre verdadeiros. Surpreendi-me novamente. Agora sei, cada dia é diferente. Não é o mesmo sol. Parece, mas não é. Alguns dias tem diferenças sutis, outros extravagantes... E hoje foi um dia diferente de todos que já vivi. 

Hoje eu te vi sob uma luz fraca, difusa, seu rosto de perfil tapado pela própria sombra. Sua arte no rosto, bem delineada. Pensei em amizade, sexo, diversão.

Você me chamou pra dançar. Talvez isso não tenha acontecido tão de repente, mas ali estava eu, me divertindo. E no pôr-do-sol não era só um sentimento, eram mil. Não sei explicar, fugiu de todas aquelas regras. Foi tudo tão diferente! O fato de ter surgido, tão puramente, da carne, estapeou-me o rosto. Era pra eu esquecer os meus conceitos, parar de acreditar em bobagens.

E do jeito que veio foi. Deixou buraco, deixou amor, deixou tristeza. Saudade é palavra inventada, é receita. Na realidade é conjunto de um punhado de outras coisas. Não há descrições. Só aquele pesar, que comprime o peito... E aí há o medo de permanecer eu mesmo, e esse é o pior de todos os medos. Por que vontade de sofrer de amor há de sobra. Mas a natureza não permite. E no fim só há lamentações. Lamentações de que as coisas aconteceram, mais uma vez, em tempos diferentes. Mas agora nem isso eu me arrisco a dizer que é sempre verdade.

O meu problema é simples, eu crio raízes rasas. Meu tempo é hoje, só hoje.


Meu Mentor


"A Janela Aberta" de Henri Matisse

Um som. Uma nota. Acordes que atravessam as entranhas. A dualidade – e responsabilidade – de ser matéria e energia. Não é no livro do tempo que escrevo minha vida. São folhas perdidas, muitas vazias, muitos rabiscos. Eu tive um bom professor.

Houve um dia em que pensei estar definhando. A luz do ambiente mudou quando me lembrei de você. Meu olho se encheu d’água. Quando te conheci você me recriou do pó. Eu me tornei esse homem que sou por sua causa. Não lhe culpo pelos meus erros, nem lhe credito pelos meus acertos. Mas a forma com a qual lidei com ambos – isso é um mérito que confiro a você. 

Sei que hoje está longe. Ou talvez nem tanto. Mas provavelmente não tem aquela urgência de cuidar da gente, de chegar na janela só pra saber se tá tudo bem. Pois eu digo que está tudo bem. O que me faz acreditar que você existe além do que já existiu não é discutível. É a minha fé de saber que está ajudando outras pessoas – por que sua alma é boa demais – que me traz alegria. Pois é quando penso em você que os sentimentos mais puros da minha infância retornam em enxurrada. E acreditar em você é mais sólido que qualquer outra coisa na minha vida, é minha crença.

Você me ensinou muita coisa. E é incrível saber que se não fosse por você, eu provavelmente teria feito escolhas extremamente opostas. Não sei se as fiz corretamente, entretanto. Porém estou certo de que meu caráter você ajudou a formar. Hoje há você nos meus livros, nas minhas músicas, em tudo.

Sinto falta de notícias mais regulares, confesso. Não é mais com tanta frequência que acordo de uma visita sua, com aquela fadiga de viagem longa, com os nervos à flor da pele, como se houvesse experimentado o êxtase. Eu me lembro sim da última vez em que me visitou; acordei com aquela certeza estúpida de que você me mandara perseguir os meus sonhos, nunca largá-los. Só fiquei na dúvida se era Deus ou você mesmo, mas isso não vem ao caso.

Agora não preciso, mas gosto de atualizações. Ainda não me disseram se você está com ela, embora alguns estejam certos disso. Qualquer dia desses me conta se sua filha está bem, se já lutou contra o Golias, se já descobriu as respostas que ela tanto ansiava em vida, se já aprendeu a voar. Meu coração aperta, ainda há uma incerteza, uma dúvida, uma preocupação esquisita. Não é a mesma paz. E você sabe que por aqui não vamos acalmar enquanto não sentirmos a mesma paz que sentimos em relação a você.

baru

Aflição


Meu caro, por que te agrada tanto julgar teus adversários? Tens frio no estômago – te sentes à vontade, todos temos – ao pensar que em terras nem tão distantes pessoas reuniram-se em teu nome para caluniá-lo. Por que te importas tanto, se fazes o mesmo?

Jovem, na chuva só permanecem secos aqueles acima das nuvens. Tu não hás aprendido a voar ainda, e nunca irás. Como te conheço e te sei: amas o discurso do teto de vidro. Tu deixas que vivam, que pensem, que matem. E ainda assim há mistérios que atormentam teu coração. Assuntos sem sentido. Nunca entendeste por que teus companheiros estudam, trabalham, constroem família. Nunca compreendeste por que gastam tanto em tão pouco tempo. Pra ti, é nos hospícios que vivem os ajuizados. "Vós de fora é que sois loucos. Viveis sob os mandamentos que vós mesmos haveis inventado. E defendestes a liberdade de viver sob eles, loucura!", vociferas esperançoso na multidão silenciosa. Diga-me amigo, o que importa se foste feliz ou triste, se morreste afinal?

Às vezes partilho de tua angústia. Tu és um filósofo aflito, sei que não vês significado nas singelas coisas. Não abstrais motivo algum daqueles que vão à luta por paixão a uma bandeira, num campo de batalha ou num estádio de futebol. Não enxergas o poder daqueles que definem o que deveis e não deveis fazer com vossos corpos. E não sabes por que um supera e outrem não.

Entretanto não são os enigmas alheios que te incomodam mais, são os teus. Por que transferes tua culpa? Ponderas se é algum vício, essa coisa. E por que tens necessidade de responsabilizar o próximo pelo teu sucesso ou pelo teu fracasso?

Sossega esse teu espírito. Pois a única coisa que compreenderás no final desta história é por que vieste. Vieste por que gostas de sofrer.

No more turning tables

But that song wouldn't fit. This will.

Eu e Eles


Amanda não sabia o que era dançar. Sabia que tinha um dom, mas só conhecia seu paladar. E praquilo ela era ótima; provava comidas de todos os gostos, nutrientes de todos os credos. Não contava para as amigas sobre seu secreto prazer. Trancava-se no quarto ao som de Ravel enquanto saboreava um Gross gatêau.

O violino do irmão, encostado na parede, perdia seu tom devido às teias. E aquele som agudo só ecoava nas memórias de Amanda. A menina se preocupava com provas, trabalhos, relatórios... E o tempo voava. Lembranças são como fumaça, pensava.

Embora intocado, o Violino permanecia ali, no canto, escorado na parede desbotada e semi-encoberto pelas cortinas cinza encardidas datadas de 1950. Era o único presente que remanesceu do seu Irmão. A última batida de coração que pulsava num intervalo infinito, e Amanda vivia a espera da batida final.

Amanda morava longe de todos e todos os dias acordava cedo, muito cedo. Tão cedo que o Sol não se punha pra Amanda; era Sol o dia inteiro, 24 horas por dia. Ou 25, por que Amanda fazia o dia durar mais, não me perguntem como. Um dia acordou cedo pra pegar o ônibus da escola e não reparou que no canto onde havia um Violino, só havia poeira.

Na escola aprendeu muita coisa importante. Muita coisa. Importante. Aprendeu a contar, aprendeu a falar, aprendeu a brigar. Talvez não tenha aprendido a brigar na escola. Ou talvez nunca tenha aprendido a brigar, mas foi lá que aprendeu a raspar. Sim, raspar. Raspava tudo que via pela frente. Raspava o resto, raspava o começo, raspava a cabeça. Só não raspava a barba, por que não tinha.

Nesse dia raspou uma garota. E era uma raspa bem medíocre mesmo, coisa de gente pobre. Amanda nunca tinha raspado uma garota antes. Não por medo, a verdade é que ela nunca teve oportunidades de raspar nenhuma pessoa até então. Raspava o tacho da panela, raspava a perna sob o banho, raspava até as bordas de seu quarto – que era maior que sua casa e nem assim ficava menor – mas nunca raspara ninguém. E ali estava ela, raspando uma menina. E se apegou de tal forma àquilo... Que parecia doença.

A menina raspada ficou puta da vida, é claro. Espalhou pela escola o quanto Amanda era inescrupulosa, falsa. Chamou-a de meretriz na frente dos colegas. Raspou qualquer conceito de piedade e jogou no lixo. Amanda foi julgada. E no final a menina – vítima de Amanda – recuperou sua raspa. Muito alarde à toa. A culpa coube a Amanda e a raspa coube à paciente.

E quando chegou a casa e percebeu que o violino se fora, seu mundo desabou. A música acabou. Nunca mais dançaria ao som de seu Irmão mais velho. Nunca mais invadiria prédios, quebraria janelas, bateria portas. Não havia mais sabor a ser raspado. Parou de comer, emagreceu, morreu.

E a raspa da garota da escola, voltou a ser raspada novamente. Uma raspa não se atém à matéria primária depois de arrancada, e só Amanda saberia disso, por que Amanda sabia das coisas. Amanda sabia das coisas e ficou calada.

Manifesto da Solidão

  
Solidão não é sinônimo de dor. Falta-me paciência para a indecisão (sempre faltou). Imaturidade aufere muitos olhares, julgamentos, interpretações diversas. Podem achar que sou louco, mas sou de pedra; fui batizado assim. Dei um passo no escuro e me fodi. Agora eu conto as horas pra findar o mês, o jogo, o sofrimento, sem dar-me conta de que nada o tem, tudo é e nem sempre dura. 

Solidão não é amarga. É propulsora da arte. É necessidade. Compõe esforço, luta e vitória. Quando me lembro de você, discirno um paradoxo. E é-me difícil escapar de uma comparação medíocre: como é possível dois corações baterem juntos em mundos tão diferentes? Você está sentindo, mas não consegue explicar. E por favor, não me ajude a desvendar esse mistério. Prefiro viver considerando-nos apenas um erro experimental. E eu sei que já o cometi várias e várias vezes com outros. Deixa-me conviver com meu ego, já é difícil o suficiente, e além do mais não suportaria outras noites como esta.

Solidão não é castigo. Sem isso eu não sou ninguém. Com alguém eu não sou feliz, e com você eu me dispus a abrir mão do meu universo. Meu anjo é forte, mas afunda como um obelisco de ferro em lençol freático. Tive fé. Algo me segurou aqui naquela manhã e sinto que houve uma conspiração universal para me fazer crescer.

Solidão é, enfim, vida. E qualquer fuga tem um só fim. Miseráveis aqueles que não sabem ainda como lidá-la. Miserável eu que não a conheço em outra forma e a mantenho só. Alguém me diga se há solidão partilhada, pois o que eu vejo me torna cético até a raiz. Preciso esquivar-me dos meus rancores.

Minha solidão é minha e de mais ninguém.

Já que dizem que sou exigente...



Eu quero alguém pra passar a vida comigo. E aqui estão os requisitos que essa pessoa deve cumprir...
  1. Quero alguém que me atraia fisicamente, mesmo que todos ao meu redor o achem bonito ou feio demais para mim;
  2. quero alguém que seja feliz e moderno;
  3. que seja cabeça-aberta;
  4. que seja arrogante apenas quando detém MUITO conhecimento sobre o assunto em questão;
  5. e que seja humilde na maior parte do tempo, ou que pelo menos se esforce para demonstrar humildade na frente dos outros;
  6. que seja prático e pragmático, ou seja,
  7. que tenha inteligência emocional (mesmo que me falte);
  8. que seja racional quando todos agem com o coração;
  9. e que aja com o coração quando todos agem com a razão;
  10. que valorize a família;
  11. que tenha amigos de infância, por que isso diz muito sobre uma pessoa;
  12. ou simplesmente, que tenha amigos verdadeiros;
  13. que seja apaixonado pelas artes, mesmo que seus gostos sejam totalmente diferentes dos meus;
  14. que não tenha complexos mal resolvidos em plena vida adulta;
  15. e que se os tiver, que procure ajuda e tente saná-los;
  16. que não tenha nenhum TOC sério ou qualquer outro transtorno, por que se os tiver e não procurar fazer terapia eu não dou conta;
  17. que seja humano e conheça seu lado negro, ou melhor,
  18. que tenha auto-crítica (e essa talvez seja a característica mais importante de todas);
  19. que consiga ficar ao meu lado em silêncio;
  20. que respeite o meu tempo, em tudo;
  21. que consiga ser feliz independente de estar bêbado ou não;
  22. que me ame na mesma medida que eu o ame;
  23. que não ache sexo a coisa mais importante num relacionamento;
  24. e, finalmente, que tenha fé.
Pode ser cheio de defeito. Pode ficar sem cortar unha, andar de roupa velha, cagar pra aparência, pode ser chato, implicante, inconstante, volúvel, sem paciência, pode falar palavrão, pode ser inconveniente, desbocado. Pode ter outros mil defeitos. Mas pra superá-los, deve que cumprir os requisitos acima. Ou acho alguém assim ou vivo forever alone, fim.

Leap of Faith



I have never thought my spirit would play with me like a fool. I've always joked a lot, not realizing how many risks I took doing so. And bloody shit, I've risked a lot. One day it might happen. And when I felt your lips for the very first time, your body was attached to mine. It was like I was feeling an Italian dew of somewhere in Firenze or a high tower in Rome, without actually having been there. For the first time I felt a balanced warmth. It was not too cold or too anxious, burning. It was just hot. And rolling in the deep I know a lot of stuff (really). I understand that I may be not that interesting. It's ok, I haven't lived enough. I know love exists and makes people happy. I understand Love after all. And I also know that truly passion hurts as well. I took a leap in the dark and only the mirror saw me. I accepted what I was feeling. I had just made up my mind and taken a decision I reckoned being one of the most important in my life. It turned out not to be. Only time can synchronize my heart again now it is in pieces.